Medeia de Noitarder no FATAL

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O teatro é uma das minhas sete quintas. A vida? Uma surpresa. E não é que esta minha sexta feira acabou “tarde”, a beber umas boas cervejolas com a Medeia! Sim a de Eurípedes ( e dos outros todos).

Publicação: Expresso – Luz e Lata

Autor: Fátima Pinheiro

Data da Publicação: 13/05/2013

António Nóvoa “tem” uma Atração Fatal

O teatro é uma das minhas sete quintas. A vida? Uma surpresa. E não é que esta minha sexta feira acabou “tarde”, a beber umas boas cervejolas com a Medeia! Sim a de Eurípedes ( e dos outros todos). O Fatal (Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa) tinha apresentado nessa noite “Medeia de Noitarder”, pelo TUP. Ao espetáculo faltava (e eu, enquanto assistia, ainda não o sabia) este encontro com uns olhos castanhos e doces; a mostrarem que a traição traz por vezes a redenção. Aquela cara solar a demonstrar que a minha interpretação do mito não deve estar longe do alvo (que matar os filhos tem muito que se lhe diga; o que leva a perguntar “quem”, “o que” nos mata a nós”). Disse-lhe que me tinham chamado à atenção os seus pés descalços e leves, quase asas. Que me tinham feito lembrar o que há pouco tinha relido de um dos heróis de Dostoievski que sentira vergonha quando ficara pela primeira vez descalço junto da mulher amada. E a conversa, embora curta, tem mais, muito mais.

Como o Expresso já aqui noticiou, o Fatal merece destaque, e ainda há tempo para ver porque não acabou na sexta mas vai até dia 25. Com a participação de Grupos de Teatro Universitários (extra-curricular), é organizado pela Reitoria da Universidade de Lisboa, e passa-se no Teatro da Politécnica. Certo é que existem festivais de Teatro Universitário por todo o Mundo e, entre nós, um outro importante Festival de Teatro Universitário na Covilhã, organizado pelo Teatr´UBi. Mas hoje escrevo sobre este, até porque a amostra da Medeia foi para mim uma atração fatal. Como testemunharam os TUP num espaço de perguntas/respostas a seguir ao espetáculo: “não queremos fazer teatro profissional; queremos fazer teatro a sério”.

Como se lê na capa do Catálogo, uma frase define-o: “Uma Flecha Jovem no Coração da Cidade”. Teatro Universitário renovado anualmente com grupos, com novos jovens, envolvendo 300 a 400 pessoas, cerca de 15 Universidades, 26 grupos, normalmente cerca de 3000 espectadores. O tema é livre e há vários prémios e menções honrosas. O júri é constituído por elementos da Escola Superior de Teatro e Cinema, da CML, Alunos e Centros de Estudos de Teatro e Artistas.

O que mais me fascina no Fatal é a paixão e dedicação de todos. Da Direção, dos estudantes, do Júri, dos fotógrafos, dos estagiários, de todos, todos. No meio das cervejas três pessoas especiais: os técnicos João Chicó, Henrique Resende e João Fernandes. E o Rui Teigão, a alma deste “ócio”, há já uns bons anos.

Raquel S., a autora e encenadora desta Medeia, é também muito especial. O teatro para ela é fundamental . Porquê? Envolve o público, sente-se a respiração do ator, as nuances da interpretação; é um espaço de liberdade e de emotividade; também lugar de sacrifício, de entrega. Entrega de quê? Do tempo, do corpo, do que se está a fazer…E a mais valia do teatro? Faz a pessoa sentir-se envolvida no universo mostrado que é levado à cena…; o teatro é uma espécie de espelho, mas um espelho que não mosta um reflexo igual… mostra um reflexo novo, distinto de nós, mas que nos aproxima de nós.

Outra coisa que o Fatal me toca fundo é a energia e a vivacidade dos jovens atores. É isso que dá identidade ao Festival. Uma atração Fatal que este ano tem o reitor António Nóvoa de parabéns, que se estendem a todos nós que podemos saber merecer todo este empenho e beleza.

O que a Medeia me disse em segredo, não posso contar. Mas “ver” é fatal como o destino: a beleza acontece a quem dela estiver sequioso. Ao que umas boas cer-vejas ajudam. Se Deus Quiser, para o ano há mais. E até 25 de Maio parece que ainda há bilhetes. Hoje, 13 de Maio, como se pode ver no link acima, no Fatal está a UCP: “Num País onde não querem defender os meus direitos, eu não quero viver”. De Jorge Silva Melo, a partir de Michael Kohlhaas, de Heinrich von Lleist. O tema é, no mínimo, uma coisa familiar.