TAR – RDB

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E afinal, onde fica TAR? O que é TAR? Quando lá chegamos?

Publicação: RDB

Autor: Susana Guedes

Data da Publicação: Janeiro 2012

“TAR” – TEATRO UNIVERSITÁRIO DO PORTO

Mas… quando é que chegamos a TAR?

Já são dez dias consecutivos aqueles em que o Teatro Universitário do Porto e a Cooperativa Cultural Inflama levaram a cena a peça “TAR”, baseada na obra “Fando e Lis” de Fernando Arrabal, provando que o teatro amador da cidade do Porto não só respira como está de excelente saúde.

Chegámos ao espaço pouco passava das 20:30. As instalações do TUP são modestas, ou não fosse o teatro uma das artes mais sacrificadas pela falta de apoio cultural. Os actores deambulam entre duas salas, onde fazem o compasso de espera pela caracterização. Raquel, de cabelo cor de fogo e pincéis em punho, apoia Tiago. Entre alguns corpos semi-desnudados facilmente se vêem as mazelas: um arranhão aqui e ali, algumas nódoas negras. A culpa é da paixão inevitável pelo que fazem e que lhe transforma o corpo num joguete ao serviço da arte.

Entre um cigarro e outro e as nuvens de laca, trocam-se frases de lógica própria e começam-se os exercícios de aquecimento de voz. O corpo também precisa de extensão e alguns movimentos começam a salpicar o espaço.

“Já não sinto o frio.”
“Estás morta, não te queixes!”
“Gaita! Esqueço-me sempre do bigode!”

No andar de baixo estende-se o cenário. Dois pilares dispõem-se ao centro como árvores de luz e as paredes são substituídas por tecido negro. O chão, esse, é terra, aquela que fará a ligação entre nós e o mundo novo que ali vai crescendo, onde troncos repousam aguardando a chegada de quem ainda está por vir. Uma luz ténue denuncia a presença dos actores que a pouco e pouco ocupam o espaço para receber as últimas indicações da encenadora. “Sejam incómodos!”. De mãos dadas respiram em conjunto, absorvem em si o momento.

“Hmmmmmmmmmmmmerda!”. “Tudo para os sítios!”

Estão prontos para começar.

Pelo número de pessoas na entrada da Academia Contemporânea do Espectáculo (nas traseiras do TUP) adivinha-se casa cheia. Dois soldados alinham o público numa fila indiana. Atravessam uma zona arbórea onde pouco se vê. As folhas secas crepitam debaixo dos pés. Mandam-nos parar. É hora da revista.

“O seu bilhete?”
“O que é que leva na carteira?”
“Encoste-se à parede. JÁ!”

Alinham-se uma última vez junto à tocha que ilumina a entrada e são finalmente encaminhados para o interior. São distribuídos pelo espaço. Os troncos no cenário não são suficientes para acolher a totalidade dos espectadores que se vão acomodando junto às paredes cobertas de tecido. “O telemóvel está desligado?” A luz começa a descer.

Lis, paralítica, está sentada num carrinho. É Fando quem a empurra em voltas a uma velocidade quase vertiginosa. Promete-lhe que quando ela morrer a visitará no cemitério e lhe levará uma flor e um cãozinho. Ela sabe que ele a ama porque a deixa usar o cobertor todinho à noite. Conversam sobre a morte, sobre o futuro incerto, sobre sacrifício.

A luz muda para um tom azul, soturno. Uma bailarina dança ao ritmo imposto pela avó. 1, 2, 3, 4. 1, 2, 3, 4. “Esperar por TAR. Dançar por TAR”. Um morto arfa lascivamente sobre os ombros dos presentes. A avó exige a perfeição. A bailarina continua a dançar. Esta é a primeira de várias alucinações que contarão com personagens diversas, entre mortos que se arqueiam em cenas de brutalidade sexual, a volatilidade infernal de relações mal entendidas ou não correspondidas, cenas que se soltam a partir do som da grafonola. Tudo isto e um cão.

O percurso dramático de Lis e Fando, que se pauta por um misto de ternura e de uma quase maldade ingénua, cruzará o caminho de um Anjo e dos homens da chuva que se debatem sobre qual é a verdadeira questão.

“O importante é dormir.”
“O importante é saber de onde vem o vento.”
“O importante é saber para onde vai.”

Todos procuram TAR, esse local que acreditam existir mas onde ainda ninguém chegou.

E afinal, onde fica TAR? O que é TAR? Quando lá chegamos?

Cada um terá que procurar obter essa resposta no encontro ente si mesmo e a percepção de um “eu” desmembrado em personagens que aceitam a humanidade incómoda que há em si.